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Liberdade, igualdade & fraternidade

Liberdade, igualdade & fraternidade

Não é de hoje que me imponho o desafio de tentar vislumbrar qual seria o modelo econômico-político com mais traços e valores cristãos possíveis. O desafio vem do fato de além de ser economista, palestrante e consultor de empresas, sou cristão. Um cristão que tenta, a duras penas, levar a vida de acordo com os preceitos de Cristo na pós-modernidade.

A divisão polarizada entre capitalismo liberal e socialismo sempre aparece como as duas únicas alternativas viáveis desta história e este nosso último processo eleitoral as reforçou ainda mais. Ricos e pobres, trabalhadores e vagabundos, elite dominante e dominados, direita e esquerda, etc.

Certa vez, após uma ministração que fiz em minha igreja em que citei os malefícios do populismo, fui questionado por um jovem sobre qual seria a posição de Jesus no cenário político do Brasil. A pergunta veio junto com algumas defesas: “Afinal de contas Jesus não estaria do lado dos pobres? Dos mais necessitados? Jesus não condenou a riqueza? Não é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha? Você não acha justo que a riqueza seja distribuída? Como podemos conviver com a fome?”.

Diante de tantas perguntas a queima roupa dei uma de “bagre ensaboado” e disse que aquela discussão merecia mais tempo para podermos abordar todos os temas e pontos de vista e que deveríamos marcar um outro dia e hora para falarmos sobre o assunto. É claro que este outro dia e hora nunca aconteceu, mas desde aquele tempo sou constantemente desafiado na busca das respostas.

A prova disso são alguns dos posts que publiquei sobre uma possível “Economia Cristã” ao longo dos anos desde o dia daquele desafio, seguem alguns deles:

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Me divirto muito lendo e assistindo teorias de conspiração, conceitos e argumentos que tentam criar caos e pânico. O medo sempre foi uma excelente ferramenta de conversão e manipulação, especialmente em épocas remotas onde conhecimento e informação eram raros.

O medo era e ainda é usado de forma inescrupulosa por aqueles que possuem para escravizar os que não possuem. Uma forma eficiente para manter o status quo e garantir perpetuidade no poder e mais acumulação.

O engraçado nisso tudo é o fato de que quem não tem nada a perder não deveria também temer. Nenhuma teoria de caos e pânico deveria tirar a paz daqueles que nada possuem. Sabedores disto incentivam todos a possuir alguma coisa – por mínima que seja – e assim criam o ambiente propício a instituição do medo coletivo da perda. Então, mais um paradoxo se estabelece e a pobreza traz consigo paz e tranquilidade.

Se em 1776 Adam Smith tivesse, por mínima que seja, uma ideia do que nos tornaríamos em nossos desejos de acumulação, ou em 1848 Karl Marx tivesse suposto como o poder e o desejo de domínio transformariam os homens, talvez tivéssemos algumas teorias reescritas.

Mas em matéria de comportamento humano não é o futuro que nos fornece pistas. Somos o apanhado de nossas escolhas passadas. Os dados disponíveis naquela época tratavam de homens bem diferentes de nós!”

O capitalismo fala de uma mão invisível que regula o livre mercado. Ela tem o poder de transformar a nossa ambição e a nossa ganância em algo bom para toda a sociedade. Ela pode ser conceituada como o espírito do deus mercado de consumo. Ela nos guia no caminho da acumulação e não nos deixa tropeçar em pedras soltas como o amor, a fraternidade, a comunhão e a doação.

Ela nos ensina a orar assim: “O pão meu mereço hoje, mereço amanhã e merecerei eternamente. Amém.”

Temos duas concepções financeiras: a primeira não está centrada no ganho individual, mas no bem-estar de toda a comunidade, na solidariedade coletiva, na generosidade pessoal e na intervenção do Estado para redistribuição da riqueza em favor dos menos favorecidos; a segunda focada primordialmente no lucro individual, na acumulação predatória e na concorrência impiedosa. Uma delas é a proposta do Islã... façam suas apostas.

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Depois de muito ler, orar, meditar, ouvir muito e principalmente conversar com pessoas mais inteligentes e sábias do que eu comecei a colocar algumas lógicas econômicas com viés bíblico e publiquei este post:

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“Uma lógica econômica bíblica levaria em consideração: uso sem posse, acumulação limitada, ações de curto prazo sem preocupações de longo, “graciocracia” ao invés de meritocracia, restrição alimentar a vagabundos, talentos multiplicados a empreendedores, crescimento sustentável limitado a preservação ambiental, inexistência de juros e consumo consciente.

Tudo isso sendo impulsionado pelo giro cíclico de capital fruto da venda de propriedades dos ricos e distribuição aos pobres.

Complicado, não? Acho que seria necessário um milênio para praticar e ver se funciona.”

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Terminei quase que “largando os bets” (terminologia usada por piás de Curitiba que tinham o costume de jogar bete-ombro na rua e quebrar as janelas da vizinhança) e jogando a resposta para o Milênio (período escatológico onde Cristo reinará na terra e nos mostrará pessoalmente como as coisas deveriam ter sido). Ok, assim fica fácil, dá menos trabalho e põe um ponto final na nossa discussão, mas como isso é coisa de preguiçoso não me contentei com o post e a minha mente continuou formigando e me guiando em novos conceitos e paradigmas.

Recentemente, enquanto reestudava a Revolução Francesa me deparei com o lema “Liberdade, igualdade e fraternidade” e novas pistas surgiram diante de mim.

Me dei conta de que, talvez, um bom lema econômico-político-cristão seria “LIBERDADE e FRATERNIDADE”. Isto mesmo, apenas retire a IGUALDADE e um novo cenário pode ser desenhado a partir daí.

A linha de raciocínio começa na hipótese de que LIBERDADE e IGUALDADE são mutuamente excludentes, não se pode ter as duas ao mesmo tempo, pelo menos não no ponto de vista econômico e não, a não ser que a IGUALDADE seja construída a força e não através de iniciativas individuais.

Vamos lá... se existe LIBERDADE plena você pode escolher quantas horas do dia você quer trabalhar, qual a disposição você quer colocar no seu trabalho, qual a qualidade do trabalho que você quer entregar e como você quer tratar seus clientes, seus colegas de trabalho, seus líderes e a sociedade.

Se existe LIBERDADE você pode escolher acordar ao meio-dia, viver com pouco, não se preocupar com o futuro e nem com o presente. Se a LIBERDADE é a nossa guia podemos escolher viver de renda ou empreender, gastar tudo o que temos hoje ou poupar para aproveitar bons negócios futuros, nos endividar em linhas de crédito ou valorizar compras a vista, comprar o que não precisamos ou direcionar gastos em coisas que poderão de alguma forma garantir outras formas de renda.

Em resumo, se há LIBERDADE, o trabalho ou a vagabundagem estão a nossa disposição. E como sabemos os resultados práticos do trabalho bem feito, do trabalho mal feito e de nenhum trabalho chegamos a conclusão que dessa equação o resultado nunca será a IGUALDADE.

Esta desigualdade, condicionada pelo livre-arbítrio de todo o ser humano, não é condenada pela ótica cristã, do contrário São Paulo não teria dito que “... se não quiser trabalhar, que não coma também” (2 Tes 3:10). Ou seja, dependendo do seu trabalho, do fruto do seu trabalho, você pode comer lagosta ou pão-duro, a escolha é sua. E quem tem o direito de comer os primeiros e melhores frutos foi aquele plantou, semeou, regou e colheu. Isto é LIBERDADE.

O resultado são as diferenças exemplificadas na minha e na sua vida, na vida de nossos pais e avós. Quem mais se dedica, quem mais trabalha, quem faz com mais qualidade, mais ganha e mais acumula. E por direito, mais desfruta da sua acumulação.

O problema surge após um tempo quando as condições de quem mais tem são infinitamente melhores do que aqueles que pouco tem ou nada tem. Daqueles que, mesmo trabalhadores e dedicados, foram vítimas de escolhas erradas e fatalidades da vida. A lógica do “só ganha dinheiro quem tem dinheiro” é verdadeira e aqueles que acumularam mais ao longo do tempo exercem uma disputa desleal com aqueles que acumularam pouco ou nada acumularam durante toda a sua existência ou nas suas gerações passadas. Não estamos falando propriamente de vagabundos, estamos falando desafortunados.

É justo aí que aparece a FRATERNIDADE, a lógica que somos todos irmãos, todos humanos e todos merecedores de condições mínimas de sobrevivência e de humanidade. 

A FRATERNIDADE é a canalizadora da redistribuição, ou da disponibilização de oportunidades, de chances, de novos começos. Nesta lógica o empreendedor é fraterno quando cria novos postos de trabalho, quando remunera com justiça, quando promove o dedicado e esforçado.

A FRATERNIDADE é a fonte de auxílio básica as vítimas das fatalidades da vida. Dos órfãos, dos doentes, dos incapazes e até mesmo dos vagabundos que não devem morrer de fome, mas podem colher o fruto das suas escolhas na vida cheia de restrições.

A FRATERNIDADE é o remédio para a memória que nos faz não chacoalhar a oliveira até que todos os frutos caiam, mas deixa uns poucos no pé para que os mais pobres possam apanhar. A que nos adverte a não recolher as espigas de milho que ficam pela chão, uma vez que os mais desafortunados podem apanhá-las (RESPIGAR de acordo com o termo bíblico) e aplacar sua fome.

A FRATERNIDADE é a que impulsiona o uso do dinheiro na esfera produtiva e não na especulação financeira. Que não joga com dinheiro sujo, mas prefere ganhar pouco com honestidade. Que fica feliz com a prosperidade de todos e que não sente inveja dos ricos empreendedores, mas que lhes agradece as oportunidades criadas.

Contudo, se nesta lógica LIBERDADE e IGUALDADE não convivem juntas, FRATERNIDADE sem AMOR também não. O nó que ainda resiste é o fato que a acumulação gera amor ao dinheiro e este é a causa de todos os males. No contexto cristão o rico deveria ser fraterno a ponto de, em algum momento, recircular sua fortuna seja na forma de criação de oportunidades, seja na caridade em si.

A observação prática é que o reino dos céus (que segundo Cristo deve começar a ser criado aqui na terra) perde a sua importância a medida que o MEU reino cresce. E para não dizer que ainda não achei ninguém disposto a dividir seu reino, vou dizer que já existem bons e poucos exemplos de “fraternidade capitalista” mundo afora, mas a regra geral não é esta, muito pelo contrário, no MEU reino ninguém mexe, afinal de contas quem suou para criá-lo fui eu. O camelo vai crescendo e o buraco da agulha diminuindo em doses homeopáticas e quase imperceptíveis.

Mas no meio de tudo isso consigo tirar algumas conclusões de curto-prazo que orientam algumas de minhas práticas diárias. A defesa da LIBERDADE acima de qualquer preço, o desapego constante e crescente (quase uma desintoxicação) de bens supérfluos, o trabalho honesto com muita qualidade, o prazer que gera relacionamento ao invés da ostentação e a FRATERNIDADE expressa em conexão pessoal e profissional, criação de oportunidades aos que as buscam e caridade aos desafortunados.

Se a loucura total e completa de vendermos tudo o que temos e repartirmos conforme as necessidades de cada um ainda está muito longe de acontecer, que pelo menos possamos aprender a diminuir um pouco nossos reinos para que outros tantos tenham a oportunidade aumentar um pouco os seus.

Sigo sem todas as respostas, mas não desisto de buscá-las. Se quiser me ajudar, seja bem-vindo(a).

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